Instante Haneke

O movimento é indivisível. Em poucas palavras se resume o que Henri Bergson, filósofo francês, queria expor em sua primeira tese sobre o movimento. Relacionando com o cinema, a razão pela qual ela se torna indivisível se remete ao fato de seu instante ser constante, não havendo cortes. Austríaco, com parte do seu cinema radicado na França, Michael Haneke vai respeitar o que Bergson acredita sobre o movimento, e seus filmes apresentam sempre o instante indivisível dos acontecimentos.
Em nossas vidas, por mais que acreditamos as vezes o contrário, a realidade é seca, dura e não dividida. Os acontecimentos ocorrem sem que esperássemos por ele, sem que tenhamos planejados, por mais que pensamos e refletimos a priori. Ou, ele não é composto de graciosidade, montagem e trilha musical. O movimento é constante, repentino. Dentro dos filmes de Haneke se presencia esse olhar do realizador sobre a sociedade. Em seus filmes os fluxos ocorrem, acontecem, em uma hora muitas vezes inesperada. Não há, em sua montagem, nada além de um plano fixo geralmente, ou alguns travellings. O plano de detalhe, aquele que nos conota intenção de algo, como por exemplo uma faca posta em uma região que só o espectador enxerga, nunca é utilizado. O que Haneke de fato deseja não é criar o clima, ou o suspense, e sim o instante indivisível do movimento. Seus planos duram minutos, mas o movimento nunca é quebrado, para trazer a relação do inesperado. Como de fato nossas vidas são.
Em uma de suas obras mais célebres, A Professora de Piano (2001) apresenta-nos a loucura que move Erika, em consonância a vida e obra de Robert Schumman, um pianista alemão que sofria de distúrbios mentais. Suas melodias, e seus tons que iam do mais alto ao mais baixo em uma mesma sequência mostravam seu nível de insanidade, e o abismo profundo que sua vida se encontrava. Erika, a professora, se identifica com o discurso, e promove a sensação do abismo, de se inferiorizar e apaziguar seus desejos. Em um romance extremamente particular que vivencia com o jovem aprendiz Walter, a prática do movimento é respeitada, em planos geralmente fixos, que apenas acompanha o instante. Os diálogos e a atuação de Isabelle Humpert e Bernoít Magimel - ambos levaram Cannes na oportunidade por suas representações - conduzem a cena, e geram sempre o inesperado. Em um estágio de loucura do casal, no qual ocorre uma espécie estupro, a construção feita do ato segue a primeira tese bergsoniana do movimento, sempre repentino. No momento final da narrativa, quando a teoria chega a seu ápice, a facada de Erika em seu próprio peito não tem efeitos, montagem, trilha, e nenhum plano que ambientalize o instante. Apenas a facada e o sentimento de dor, em um plano fixo a som natural. E da mesma forma o filme se encerra, mas não nele mesmo, apenas para gente, sem que se espere por um fim.
Uma sociedade em movimento
No seu mais recente filme, A Fita Branca (2009), Michael Haneke segue o preceito do indivisível. E logo na primeira cena, com o médico que despenca do cavalo em movimento, de súbito. A premissa de que seu cinema caminha conforme o movimento da realidade, do inesperado, é o cartão de boas vindas. Não que o acidente interfira na narrativa, mas é uma legitimação da sua característica mais forte. O movimento, sempre indivisível, acompanha o enfoque narrativo apresentado aqui.
Haneke opta por mostrar um vilarejo quase feudal existente na Alemanha, em um período atemporalizado por ele mesmo em quase todo o filme. Apenas no final, quando a lógica apresentada já se faz presente, saberemos que se trata do pré-guerra de
Nesse vilarejo, o professor, que também é o narrador-off, acompanha imerso todos os movimentos. O Barão é o senhor feudal, quem organiza político-socialmente aquele povo, que o respeita como a autoridade. O importante não é aqui enumerar personagens, e sim, constatar atores sociais que Haneke apresenta, além de demonstrar suas nuances antropológicas. Todos eles tem seu conservadorismo aflorado, e a utilizam de forma violenta, agressiva, ou batendo em seus filhos e mulheres, ou abusando sexualmente, psicologicamente. A hierarquia é valorizada, uma sociedade que há sempre um führer, em todos os âmbitos. E o líder, além dessa organização quase militar, sempre é respeitado, seja na relação de pai-filho, ou patrão-funcionário, barão-sociedade. De fato Haneke quer sempre mostrar a relação causa-efeito de atitudes sociais. De certa forma isso é uma máxima em suas narrativas, e aqui não será diferente.
Numa estância mais abstrata, reconhecemos um desvio de conduta que provocou o sentimento vivido nas duas grandes guerras pela Alemanha, e na hierarquia geradora do partido nacional socialista alemão e seu contexto. Mas Haneke já justifica, em certa medida, esta sua relação, intenção, dentro da própria narrativa.
Há consequentes crimes ocorrendo dentro do vilarejo, sem uma explicação. O professor-narrador, suspeita das crianças do vilarejo de serem os causadores da violência. Fatos que não são solucionados, apenas aparecem em um movimento constante, repentino. Na verdade, não importa saber quem provocou os absurdos, mas sim constatar uma repulsa à violência psicológica e física que é praticada por quem tem o poder no local. A velha máxima de violência só gera violência, é abordada aqui com a premissa do efeito pela causa.
Outra vez respeitando o movimento indivisível da nossa realidade, Michael Haneke encerra o filme para nós, com o fechamento do ecrã, mas nunca nele mesmo, em um encontro dos personagens na igreja local. Sobram lacunas, discursos, mas isso não acontece em nosso movimento indivisível da vida também? E os efeitos só irão nos surgir quando muitas vezes já nos esquecemos da causa. O que o realizador quer de fato ele consegue, gerar debates, e tratar seu cinema como um cotidiano naturalista na nossa vivencia. O movimento é indivisível, segundo Bergson, e Michael Haneke trata de forma densa essa teoria, atuando no agir cognitivo do espectador. E por aqui não encerro a discussão, assim como Haneke, que nunca encerra a sua.








