Sociedades imaginadas e o estudo de cinema

O estudo antropológico-cultural é algo que geralmente está intrínseco ao cinema, até por ser uma arte que retrata o natural, o real. Alguns apóiam, e eu também acredito nisso, que há no realizador de cinema uma convicção pela antinaturalismo, em explorar a experiência da ficção, mas esse antinaturalismo é construído através da realidade, como sabemos.
Dessa forma, Body double (Duble de corpo), filme de 1984 de Brian de Palma, lança algumas discussões que se assemelham com o período do cinema e dessa sociedade imaginada da pós-modernidade. Primeiro, é composto na narrativa algumas inserções da cultura do período. Lógico, se tratando do pós-moderno, é fato que nós estamos relacionando a um fragmento da sociedade, tipicamente vivida no bojo do período, no começo dos anos 80. É tão arraigada a geração à composição cultural que se faz na mise-en-scène, que as cores e a moda extravagante, assim como a música do Frankie goes to Hollywood, e a própria banda, não passaram do período mencionado. Hoje você tem revisitações, o que é comum, mas esses mencionados não voltaram por completo, apenas fragmentados, caracterizados e referenciados por alguém.
Mas o filme almeja mais do que isso, ele tem uma intenção em ser um filme datado, em certo sentido, e não é só para demonstrar o que ocorria nessa sociedade imaginada. A idéia principal do longa-metragem é referenciar o cinema, lançar o estudo sobre a obra e sobre o papel do realizador. Brian, como grande parte dos cineastas americanos, é um admirador dos estudos de plano, e de direção realizado por Alfred Hitchcock. Aos moldes do mestre, de Palma cria um thriller, com personagens e seus traumas, como a inevitável comparação entre o personagem Jake Scully e Scottie, de Vertigo (Um corpo que cai). É plausível de relacionar o assassino frio e inteligente, como é o caso de Sam Bouchard, com Brandon Shaw, de Rope (Festim diabólico), até em sua caracterização, não só por suas semelhanças psíquicas. Não se pode ignorar também a presença de Jack Scully como um voyeur, tal como Jeff, em Rear window (Janela indiscreta). Como se trata de um autoreferenciamento proposital ao cinema, é de suspeitar que Jack tenha uma semelhança nominal com Jeff, bem como Scully, seu sobrenome, e Scottie, o personagem de James Stuart que sofre de vertigem.
E é justamente no ponto que Brian pretende chegar, em uma narrativa que se assemelha mais as condições de uma parcela da sociedade, educada pela pop art, que vivenciava a new wave. A utilização de argumentos, personagens parecidos aos de Hitchcock, tem seu caráter de reverencia, de admiração, mas principalmente de auto-reflexão, de se modificar e reestruturar a arte, provocando um estudo em cima dela. O espelho que reflete a equipe de filmagem deixa claro essa questão. Não por acaso, são utilizados em composição ao thriller duas escolas em voga no cinema americano, de pouco prestígio, mas que tem sua identificação com a sociedade cultural oitentista, e também ao referenciamento cinematográfico. Os exploitations da segunda fase, e o crescente mercado de filmes eróticos.
Os eróticos e os filmes B dos exploitations tem suas simbióses, suas semelhanças, se alimentam de um mesmo princípio. A referencia é sempre presente nos dois gêneros, um se apoiando mais em filmes de terror baratos, e usando como paródia o próprio gênero, praticado antes por Ed Wood e Russ Meyer, por exemplo. E os filmes eróticos desse período também se apóiam nos filmes B, de vampiros e outras figuras fantasmagóricas, com muita extravagância, elementos da pop arte e sátiras do próprio cinema, de qualquer gênero. Brian de Palma está discursando que o cinema se tornaria uma referencia constante a ele mesmo, a partir dos marcos, de novos gêneros, de uma sociedade fragmentada que tem como característica principal fazer um autoreferenciamento.
A verdade e o tempo nos mostraram que apesar de um filme datado pelo seu estilo, pela suas referencias pop do período, Body double falaria muito mais a seguir, com o que aconteceria no cinema a partir daquelas mudanças anunciadas nas entrelinhas de sua narrativa. John Sayles, Abel Ferrara, Robert Rodrigues, e principalmente Quentin Tarantino seriam capazes de nos dizer que esse filme é mais contemporâneo do que parece ser.



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