Tese sobre Lee
É notório que a discussão feita no cinema americano por um período era correspondente à geração, aos movimentos sociais, as questões estruturais da antropologia, sobretudo a urbana. Quando me refiro ao discurso sociológico, me refiro a autores provenientes de Nova York, que traduziam em suas narrativas o que era provocado nos embates sociais, tanto etário, com a juventude transviada e alienada, contrapondo os retrógrados conservadores. Assim como também o debate étnico, dos guetos, dos bairros de negros, italianos, latinos e caucasianos em geral. Segregação que remete a sociedade da fragmentação.
Dentro do contexto apresentando, não há um cineasta que melhor vislumbrou e entendeu o cerne do problema nos EUA do que Spike Lee, sobretudo em sua obra-chave, Jungle fever (Febre da selva), 1991. O título, que o autor entende ser um desejo do preto ser branco, e vice-versa, corresponde ao personagem central da narrativa, Flipper. Um arquiteto que sofre castrações por sua etnia, nas relações sociais, e também na desvalorização de sua profissão, de cargos e serviços. Sua mulher é uma negra com hereditariedade caucasiana, refletindo o desejo do personagem em se tornar um ser socialmente compatível. Esse desejo que ocasionará em sua traição, e uma relação com Angie, secretária da empresa, que tem descendência italiana. Nos diálogos construídos, e nos conflitos, percebe a tensão social presente. Spike constrói, em cada personagem, um arquétipo do contexto, o pastor batista conservador, o italiano preconceituoso, o negro fundamentalista, e com diálogos fabulosos nos conota os verdadeiros conflitos, que transcendem a cor de um e de outro.
O ponto crucial, e assim começo de fato a minha tese, é a questão cultural, de hibridização, apropriação, e compartilhamento também. Em cada conflito, se escuta como trilha aquilo que corresponde. Quando o plano nos mostra Flipper discutindo com seus pais, ou irmãos de etnia, como o próprio Spike Lee, que representa Cyrus, ouve-se algum funk, música tipicamente negra, do período temporal, principalmente a música título de Steven Wonder, sem montagens, como composição da cena realmente. Mais do que uma trilha, é o sonsigno transcendental que nos denota a tese cultural. Para conflitos entre negros e brancos, se utiliza da mesma técnica, compondo com o cool jazz de Coltrane e Davis. Cultura negra que agrada ao branco, Por fim, é então que o discurso da apropriação, hibridização avança, quando há brancos discutindo, ouve-se Sinatra, o jazzista branco de maior impacto. A montagem se repete quase sempre, causando o signo do conflito real. Em uma fala, o personagem de Wesley Snipes resume que o conflito muitas vezes, ou quase sempre é cultural. Questionado por Angie o porque de ter casado com uma mulher mais branca do que ela, e nunca ter se incomodado por isso, ele transfere pra ela o desejo real, de que sua mulher, apesar de descendência caucasiana, vivencia a cultura dos negros, e é isso que basta.
O rap e o hip hop, cultura negra urbana, nasceu de um desejo identário, mais do que político ou étnico. Os grafites de Nova York, quando feitos em prédios da Times Square, ou símbolos como Rockefeller Center, não é uma agressão política-social, é de identidade e de identificação. Spike Lee percebe a cultura negra não apenas como uma reivindicação de anos de segregação e maus tratos, mas acima de tudo, a representação simbólica da etnia.



1 Comments:
muito legal, cara. Vou procurar o filme agora!!!
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